Como prometi no último artigo (O que é saudável no sexo?), retomo hoje a questão do sadomasoquismo.
Uma certa dose de sadismo e de masoquismo existe em todas as pessoas e faz parte de nossa herança animal. No dia-a-dia dos relacionamentos amorosos uma certa dose de sadomasoquismo pode passar despercebida por não acontecer fisicamente, mas na área psicológica.
Freqüentemente ouve-se falar das práticas sexuais que envolvem uma certa dose de dor e sofrimento; costumamos chamá-las de sadismo e de masoquismo. Define-se sadismo como sendo uma atitude mental que consiste basicamente em sentir prazer ao infringir sofrimento a outras pessoas, principalmente o parceiro sexual; luxúria acompanhada de crueldade. O masoquismo, inversamente, se refere a uma tendência a ter prazer e excitação sexual com o próprio sofrimento, quando causado por determinadas agressões, especialmente se originadas do parceiro sexual. A partir destas definições, torna-se fácil entender porque sádicos e masoquistas tendem a conseguir uma boa harmonia sexual.
O termo sadismo se originou do nome do marquês de Sade (1740-1818), escritor francês que foi internado por Napoleão Bonaparte como louco incurável, no hospício de Charenton, em Paris, onde morreu. Sade (cujo nome de batismo era Donatien - Alphonse - François) se tornou famoso por suas descrições de impulsos sádicos e pelo insistente relato, em obras de ficção, de situações e personagens sádicas. Sua obra se notabilizou pela perversidade dos personagens e das situações por eles vividas.
Do nome de Leopold de Sacher-Masoch (1835-1895), romancista austríaco, autor de contos e novelas passionais que se celebrizaram pela construção de situações e personagens que extraiam prazer em seu próprio sofrimento, originou-se a palavra masoquista, que serve para designar este tipo de postura emocional. Não é segredo que há muito de autobiográfico na obra de Sacher-Masoch e desconfia-se que o mesmo seja verdade com relação aos textos do marquês de Sade.
Sadismo e masoquismo: duas faces da mesma moeda Tudo indica que, do ponto de vista psicológico, sadismo e masoquismo sejam as duas faces da mesma moeda, pouca diferença havendo entre a dinâmica mental sádica e a masoquista; ambas manifestando uma sexualidade onde predominam os impulsos agressivos. Assim, sadismo e masoquismo se complementam quase tão completamente quanto o par masculino-feminino.
Uma certa dose de sadismo e de masoquismo existe em todas as pessoas e faz parte de nossa herança animal. Podemos observar, na natureza, diversas espécies animais que manifestam, durante a relação sexual, variadas formas de sadomasoquismo. Os mais próximos a nós e por isto mesmo mais constantemente observados são os gatos, cuja relação sexual é repleta de aspectos de violência e agressão entre macho e fêmea. Também podemos observar o mesmo padrão de comportamento na forma de relacionamento do galo com a galinha e entre os cães, só para citar alguns exemplos entre os animais domésticos.
Sendo tão freqüente, o sadomasoquismo não pode ser considerado doentio, a não ser quando ultrapassa os limites do bom senso e da concordância entre os parceiros. Pode-se afirmar que, enquanto for praticado entre adultos e sem danos à saúde, o sadomasoquismo não passa de uma forma de atividade sexual, de busca de prazer, sem ter necessariamente uma conotação patológica.
Se quisermos adotar - como antigamente se fazia, em função da moral sexual repressiva, vigente na época - uma norma de comportamento na qual atividades sexuais sádicas e masoquistas sejam consideradas doentias, teremos de considerar doentios mais de 80% da população humana, incluindo-se aqueles que doentiamente reprimem suas tendências sexuais mais espontâneas, e quase toda a população animal de nosso planeta.
O mais importante é, contudo, percebermos que existe no dia-a-dia dos relacionamentos amorosos uma certa dose de sadomasoquismo que costuma passar despercebida por não acontecer fisicamente, mas na área psicológica. Um exemplo bastante freqüente se encontra nos desentendimentos entre maridos e mulheres, seguidos de atitudes de tortura mental: agressões e humilhações de parte a parte.
Geralmente estas manifestações mais sutis de sadismo e/ou de masoquismo ocorrem em relacionamentos que se tornam doentios pela falta de percepção do que está acontecendo por parte dos parceiros. A doença consiste não tanto no que se faz, mas no fato de se fazê-lo sem se ter consciência do quanto este comportamento é negativo. Pior, muitas vezes é fruto da repressão de manifestações mais naturais de uma sexualidade temperada pela animalidade instintiva. Alguma forma de agressividade na relação sexual, costuma ser muito saudável à relação amorosa, do que um comportamento sexual mais reprimido ao qual se segue hostilidade contra o parceiro. Em breve abordarei um aspecto específico da relação sadomasoquista, que é a relação de dominação e submissão que não envolve necessariamente violência física.