Quando ouvimos falar de homens profissionais do sexo,
conhecidos como garotos de programa ou michês, podemos levantar a hipótese de
que as mulheres estão ousando ou reproduzindo um modelo masculino de vivenciar a
erotização da sua sexualidade fora do contexto doméstico, mas essa idéia não
confere com a realidade. É sabido que a clientela desses garotos de programa é
composta na sua quase total maioria de homens, homo ou bissexuais, que buscam
prazer e diversão com o sexo, nesse caso, pago.
Certo? Errado? Não
cabe a nós julgarmos.
Alguns buscam no sexo pago a realização de seu
poder, a realização de seus desejos e até de uma transa sem envolvimento
afetivo, sabemos que muitos homens, após inúmeras frustrações afetivo-sexuais se
tornam avessos a compromissos, por outro lado, apesar das grandes mudanças
comportamentais que as mulheres conquistaram nesses últimos 40 anos, inclusive
sexualmente, é sabido que muitas mulheres ainda carregam em si os pudores de uma
educação repressora da sexualidade, o que faz com que o relacionamento seja
repleto de uma moralidade que retira a possibilidade de viver o erotismo na
relação.
Sabemos também que a sociedade tem um comportamento muitas
vezes cruel, repleto de preconceito e discriminação com relação às pessoas com
orientação homossexual ou com pessoas que manifestam sua bissexualidade, muitas
vezes esses homens homo ou bissexuais buscam ter com homens profissionais do
sexo alguém para fazer sexo, e a oportunidade de extravasar desejos e
fantasias.
Então, quais são os cuidados?
Não podemos
esquecer de tomar os cuidados básicos que devem existir em qualquer
relacionamento íntimo, seja homo ou heterossexual, com namorado(a), com seu
parceiro(a) ou com um (a) profissional do sexo, e esse cuidado preventivo básico
é o de não deixar de usar o preservativo, em nenhuma situação!
Mas é preciso saber que o correto é usar o
preservativo desde o inicio da relação, e não só no momento de penetração, seja
ela vaginal ou anal.É necessário também usar o preservativo para o sexo oral.
Nunca use dois preservativos, é errado pensar que isso aumenta sua proteção,
isso só aumenta a chance dele estourar.
Isso vale para todas as pessoas,
jovens, adultos, idosos, clientes e profissionais do sexo, homem ou mulher,
somos todos passíveis de adoecer, de se apaixonar e também de se contaminar e de
morrer. Muitas são as DST - doenças sexualmente transmissíveis, as mais comuns
são: sífilis, gonorréia, "crista de galo" ou HPV, e a contaminação por HIV, a
Aids. Fora essas, outras doenças como a hepatite, que não é sexual mas pode ser
passada via contato sexual. Por isso, proteja-se, sempre.
A prostituição e a sociedade
É muito comum ouvirmos as
pessoas dizerem que a prostituição é a profissão mais antiga da humanidade. Mas
a prostituição, como vemos hoje, é um "fenômeno essencialmente urbano", surgido
há menos de dois séculos com o nascimento das grandes cidades, da classe
dominante burguesa, do modelo de família monogâmica, e da noção de fidelidade
que normatizou a sexualidade das pessoas.
O antropólogo Luiz Henrique
Passador nos lembra que essa família burguesa, que passou a ser o modelo para
uma nova ordem sexual, onde o prazer permitido tornou-se o privado, o lar, e que
nessa nova privacidade, a mulher foi confinada e "dessexualizada", surgindo
então, a figura mítica da "rainha do lar", cujo prazer passa a ser direcionado
para o cuidado e a reprodução da família, que passou a ter a sua sexualidade
controlada por questões morais de poder.
Nesse momento a virgindade ganhou o significado de pureza moral, ou seja, aquela que se guardou para um só homem, que controlou seus "instintos" e não se entregou à busca da satisfação de prazeres carnais e mundanos. Assim, a prostituição e a prostituta passam a ser vistos como os opostos ao lar e à "rainha do lar" . É na prostituição onde a sexualidade insubmissa podia acontecer, associada às representações do impuro, da sujeira sexual - a "Boca do Lixo"! É nesse contexto que os homens podiam viver as fantasias irrealizáveis, os desejos proibidos no território do lar, locais com caráter lúdico e público - boates, bordéis, "zonas" e ruas.
A prostituição se apresenta ainda hoje, como uma alternativa momentânea à quebra da disciplina, principalmente em relacionamentos que preservam esse caráter machista do poder e do sexo. É o território do prazer ilegítimo na vida cotidiana, onde muitos podem revelar suas fantasias e suas identidades sexuais mesmo que temporariamente desestruturadas, sem que corram o risco de terem suas identidades sociais comprometidas, retornando íntegros ao lar, a família, e ao trabalho, tal como romanceava Jorge Amado, no campo da literatura de ficção, um dos autores que privilegiam o estereótipo romanceado e humanizante da prostituta sábia, tolerante e acolhedora, e do bordel enquanto espaço de convívio social masculino.