Quem nunca sentiu ciúme? Este sentimento complexo está presente no relacionamento amoroso, entre amigos, irmãos e no trabalho. O ciúme, sentimento de dimensão variável, pode ser um simples detonador de briguinhas bobas ou se transformar num estopim de crimes passionais.
Nesta entrevista ao Vya Estelar, o escritor e psicoterapeuta Eduardo Ferreira Santos, autor dos livros, Ciúme - O medo da perda, Ed. Ática e Ciúme - O Lado Amargo do Amor, Ed. Gente, esmiuça todas facetas deste sentimento complexo, descreve os três perfis básicos do ciumento e apresenta um teste de 15 questões para você descobrir se é ciumento (a). Além de fornecer dicas para dominar este confuso sentimento.
Cíúme: um sentimento ambíguo
Vya Estelar - Porque o tema do ciúme fascina tanto as pessoas?
Eduardo - Porque a nossa cultura tem uma característica ambígua em relação ao ciúme. Ao mesmo tempo que ele é admirado, por ser associado ao lado do amor e do zelo, ele é odiado por ser associado à posse. As pessoas se vêem confusas em relação a este sentimento. As pessoas se perguntam é normal sentir ciúme? Isto acontece, porque o ciúme tem uma série de características contraditórias, confusas e complexas.
Vya Estelar - O que é o ciúme?
Eduardo - O ciúme é ao mesmo um tempo um sentimento complexo e um complexo de sentimentos. Existem muitas coisas envolvidas neste sentimento. Ele é na verdade um medo, aliado a uma agressividade, aliado a uma desconfiança, aliado a uma eterna dúvida. Este complexo de sentimentos chama-se ciúme.
Desconfiança: o fio condutor do ciúme
Vya Estelar - Que medo seria este?
Eduardo - Pode estar por trás da desconfiança um medo de perder, mas não é somente o outro em si. Porque na questão de ser traído não está se perdendo, necessariamente, o outro. Mas está se perdendo o amor próprio, o orgulho, está se ferindo o ego. Neste sentido, que eu falo que ele é complexo, porque ele envolve uma série de elementos, mas sempre tem como objetivo um sentimento de que o "Eu" está ameaçado de alguma coisa. O outro é um objeto de ameaça ao meu "Eu". Sempre há um outro e um outro, um terceiro elemento na situação. Eu estou ameaçado por alguma coisa, que possa ocorrer entre o meu parceiro, meu amigo, minha amiga e um terceiro que possa ameaçar a mim mesmo.
Triângulo
Vya Estelar - O ciúme é sempre uma relação a três?
Eduardo - Sempre. É uma relação a três. Mesmo que este terceiro seja uma entidade. Este terceiro pode ser um trabalho do companheiro, o público em geral. Enfim, é um terceiro elemento com o qual eu disputo e me sinto ameaçado por ele, em relação ao segundo elemento.
A impermanência
Vya Estelar - Por que as pessoas sentem ciúme?
Eduardo - Porque sentem-se inseguras. Inclusive, o budismo coloca a questão da impermanência. Nada é permanente. Você pode perder o seu parceiro, ele pode ir embora a qualquer momento. Se o parceiro for embora, alguns acham que vão perder o chão. É mais ciumento aquele que mais depende do outro emocionalmente.
Vya Estelar - Uma pessoa com uma boa auto-estima e um bom amor próprio está livre do ciúme?
Eduardo - Amor próprio e auto-estima são coisas bem diferentes. Têm pessoas que possuem auto-estima baixa e amor próprio alto.
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Auto estima: é o grau de valor que dou a mim mesmo. Amor próprio: é o afeto que eu sinto por mim. |
O ciúme é como a dor
Uma pessoa que tem uma auto-estima razoável e possui um valor real, reconhece o seu valor, reconhece o seu limite, reconhece sua posição existencial, reconhece a questão da impermanência. Sabe que não é dona de ninguém e que ninguém é dono dela. Esta pessoa pode ficar enciumada em determinadas situações reais, aonde se sinta ameaçada de perder o seu companheiro em relação a uma terceira pessoa, que de fato tenha um valor maior do que o dela. O ciúme é como a dor, vai indicar algo. Você tem dor é porque tem alguma coisa por trás disto. É normal sentir dor e é normal sentir ciúme.
Vya Estelar - Dentro de uma relação afetiva o ciúme pode ser saudável?
Eduardo - O ciúme é um sentimento egoísta. Sou eu o ameaçado. O foco sou eu. É baseado numa desconfiança, numa insegurança. Portanto, não considero como sendo um sentimento que possa ser saudável. Quando uma pessoa sente ciúme a preocupação é consigo mesmo. Não é com o outro.
O zelo
É diferente do zelo, no qual ocorre a preocupação com o outro. Se ele sentiu ciúme de mim é porque ele gosta de mim. Aí começa o grande cavalo de Tróia na vida das pessoas. Se ele sentiu ciúme de mim não é porque ele gosta de mim, mas porque ele tem um sentimento de propriedade sobre mim. Aí não é uma questão por conta de amor, mas por conta de posse.
Vya Estelar - Quais são os graus do ciúme?
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O Enciumado: Aquela pessoa que eventualmente na presença de uma ameaça real sente o ciúme. Estou com a minha parceira. Vamos a algum lugar e aparece a Gisele Bündchen e eu fico encantado por ela e a minha parceira fica enciumada e, vice-versa, se eu estou com ela, e aparece o Reynaldo Gianecchini. Se eu percebo que possa rolar uma paquera entre eles, vou ficar enciumado. Este "ficar enciumado" é natural. O Ciumento: Vive em estado de ciúme o tempo todo. Se o parceiro demora, fica preocupado, mas não preocupado com o parceiro, mas se ele está com outro ou com outra, aonde foi que não avisou. Então, vai vasculhar bolsa, bolsos, armários, pertences e cartas. Neste caso, a pessoa já possui características neuróticas. O delírio de ciúme ou Síndrome de Othello: O terceiro tipo, o chamado ciúme patológico, também conhecido como "Síndrome de Othello", em referência ao personagem shakespeariano que sofria deste mal, pode levar a pessoa a cometer atos de extrema agressividade física, configurando aqueles casos que recheiam as crônicas policiais de suicídios e homicídios passionais. A pessoa se comporta da seguinte forma: "Você fez a barba hoje porque vai encontrar com a outra."
A pessoa sai de uma desconfiança para uma certeza delirante. |
Vya Estelar - Porque a mulher em geral teme perder o seu o amor e os homens em boa parte temem serem traídos?
Eduardo - Na minha visão ainda é uma questão cultural. Porque para a mulher ainda, apesar das mudanças, considera o casamento e a questão afetiva como sendo uma prioridade. Há até quem diga que a mulher se casa com o casamento.
O homem teve uma educação mais voltada para o exercício da masculinidade. O medo de ser ameaçado ou de ser corneado ainda é, nos dia de hoje, culturalmente importante. Independente de sua parceira ter uma ligação afetiva com a terceira pessoa. O homem está mais preocupado com a traição física. O ciúme do homem é mais sexualizado e o da mulher é mais afetivo.
A solitude
Vya Estelar - Quem teme mais a solidão, o homem ou a mulher?
Eduardo - Ambos temem a solidão e não sabem lidar com a solitude que é o estar sozinho, mas estar bem. O ser humano é um ser relacional. As pessoas não chegam a adquirir um processo de individuação como diz o Jung. As pessoas sozinhas não se sentem inteiras. Então, precisam de uma outra pessoa para complementar este pedaço do "Eu", já que ambos só têm uma estrutura de personalidade parcialmente formada. As pessoas buscam no companheiro, a complementação do "Eu", o efeito tampão do "Eu".
Vya Estelar - O que o homem e a mulher esperam de um relacionamento?
Eduardo - Em toda relação existe um contrato secreto de pessoa para pessoa. Este contrato secreto é o seguinte: "Eu espero que o outro saiba o que eu quero sem que eu precise explicitar". Por exemplo, uma pessoa fóbica ou medrosa espera que o outro sempre a proteja. Uma pessoa que é muito atirada na vida, espera do outro, que ele a impeça. Mas isto é inconscientemente. Um espera que o outra faça inconscientemente o complementar dele mesmo. Na hora que isto acontece de fato, como isto é inconsciente, surge um conflito.
Uma pessoa que é ousada e atirada vai esperar que o outro a controle. Então, vai escolher um ciumento, porque o ciumento controla. No começo ela acha legal ser controlada, mas chega uma hora que este controle excessivo gera uma aflição e isto vai gerar o conflito.
Ciúme e poder
Vya Estelar - Como o ciúme pode ser usado como uma demonstração de poder?
Eduardo - O ciúme é uma demonstração de poder. É uma tentativa de poder. O ciumento se julga e se vê com seu direito de posse e de poder sobre o outro. Então tenta exercer um poder de coação, de ameaça e de cercear o outro. O cerceado pode usar o ciúme como um objeto para desestabilizar o ciumento.
Vya Estelar - Qual é a diferença entre ciúme e inveja?
Eduardo - A inveja é a irmã gêmea do ciúme. O ciúme é o medo de perder e a inveja é o desejo de ter o que o outro tem. O ciumento tem o medo de perder o que ele já tem. O invejoso se sente o não proprietário.
O véu da desconfiança
Vya Estelar - Se as suspeitas se confirmam o ciúme acaba, como é isto?
Eduardo - Filosoficamente, o ciúme é um sentimento baseado na desconfiança. Segundo Proust a essência do ciúme é a desconfiança. É aquele véu que encobre a realidade. Se há uma realidade, não se fala mais em ciúme. Se já houve a traição e a confirmação, a pessoa já não tem mais o medo de perder. Ela já perdeu. Surge neste momento, um outro complexo enorme de sentimentos, de derrotas, de fracasso, de raiva e de ódio.
Vya Estelar - Porque a ausência do parceiro gera o ciúme?
Eduardo - Porque não se tem o controle da situação.
Vya Estelar - Como é a relação do ciúme com a idade?
Eduardo - Não existem dados específicos, se jovens são mais ciumentos do que os velhos e se num casal, onde há uma diferença de idade, se o mais velho seria o mais ciumento e vice-versa. A questão passa pela maturidade. Quanto mais maduro menos ciumento. A pessoa mais amadurecida se sente mais segura consigo e com o relacionamento.
Vya Estelar - Como lidar com o ciúme?
Eduardo - O primeiro momento é o sentimento em si. O primeiro momento, é eu sentir e como eu sinto o ciúme. O segundo momento, é o que eu faço com isso. Eu reajo a este sentimento de que forma? Controlando, dando escândalo, com agressividade? Os parceiros devem conversar, se abrir e entrar num diálogo saudável. Esta e a única forma sublimável de lidar com o ciúme, tentando normatizá-lo. Conversar com o parceiro e procurar entender o que está acontecendo. Procurar verificar se o problema é da pessoa que está com o ciúme.
O outro
Muitas vezes o ciúme vem não só de mim, da minha dificuldade de lidar comigo mesmo, mas do meu parceiro que age de uma forma que possa favorecer este ciúme.
Vya Estelar - Qual dicas você daria para dominar o ciúme?
Eduardo - Em primeiro não negar que está com ciúmes e conversar com o parceiro. Em relação ao lado preventivo, tenha como um dos critérios de escolha afetiva, que se o teu parceiro ou possível namorado ou namorada manifestar ciúme, isto não é uma coisa legal, porque isto pode virar um inferno. As pessoas às vezes acham que um pouquinho de ciúme é sempre bom, mas uma coisa leve pode se transformar num caos. Os jornais estão cheios de crimes passionais.